RuPaul e as querelas da vida real.

RuPaul Charles (Novembro 17, 1960) é, sem sombra de dúvidas, a drag queen norte-americana mais bem sucedida comercialmente. Ela tornou-se famosa no início dos anos 90, quando lançou seu primeiro hit “Supermodel” e hoje em dia, é a apresentadora do programa que computa o maior nível de ratings de audiência em toda a história da Logo Network.

No dia do lançamento do primeiro episódio da quinta temporada de RuPaul’s Drag Race mais de 1.3 milhões de telespectadores estavam sintonizados na Logo Network, tornando o episódio a series premiere com o maior nível de ratings da história da emissora; e ao falarmos de mídias sociais, ocorreu um aumento de 136% em relação a premiere da quarta temporada.

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Após mais de uma década de programas televisivos (tendo início em 1996 com o já finalizado “The RuPaul Show” até 2015, com shows como “RuPaul’s Drag Race” e “Good Work”), o sucesso de RuPaul e suas queens não é computado somente através de ratings e coroas.

Ao aproximar a cultura gay pop da cultura pop e tornando tudo mainstream, RuPaul não foi somente responsável por tornar consciente todos os cis que assistem ou não ao seu programa, mas ela iluminou um problema que permeia a cultura pop há anos.

Gírias como “realness”, “yas”, “shade” e “work, girl” parecem ter saído do vocabulário popular de mulheres cis norte-americanas e que foram adotados por brasileirxs, britânicxs, orientais, etc. Mas é exatamente o oposto, tais girias nasceram no vocabulário popular da comunidade gay – para ser mais precisa, na comunidade de drag queens norte-americana (apesar de algumas terem nascido na Escócia e terem sido encorporadas na cultura negra norte-americana e na cultura gay há alguns anos).

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Hoje em dia, estas vem tornando-se cada vez mais populares conforme a popularização de RuPaul, seus programas de TV e das drag queens. Conforme caminha a sociedade em direção a compreensão de diferentes sexualidades e identificações de gênero, uma coisa ainda é incerta: o nível de empatia entre os seres humanos.

Mesmo RuPaul transparecendo a essência que sempre desejou e iluminando o trabalho das drag queens para enfatizar a realidade: drag não é um trabalho superficial; ela reenforça a ideia de sororidade e irmandade. Mas, alguns episódios ainda continuam conectados a falsa realidade marketizada por anos, de que drag = “I’m not here to make friends”.

O termo “frenemies” existe há alguns anos na cultura pop, e consegue ser traduzido como “aminimigxs”, ou seja, uma espécie de fusão de amigx com inimigx e tornando-se uma pessoa só na vida de outro alguém.

Enquanto mulheres e adolescents são jogadas umas contra as outras em produtos feitos para o entretenimento delas, homens ficam com a parte adorável denominada “bromance”, uma mistura de romance com irmandade.

Obviamente que o termo “frenemies” se aplica a vida real de muitos homens por aí, porém ele é deixado somente para a realidade, ao retratar a rivalidade entre dois homens na cultura pop ela é somente isto, uma rivalidade.

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Com o distanciamente das pessoas devido a imersão em produtos tecnológicos e em seus próprios problemas e frustações, muitxs se esqueceram do que é empatia e do que é se colocar no lugar dx outrx.

Diferentes episódios de RuPaul’s Drag Race retratam perfeitamente a melhor definição do que significa “frenemie”: alguém que te trata docemente, porém quando está sozinhx ou com outra pessoa – no caso do reality show, sozinhas com uma camera – é rápidx ao denigrir sua imagem e algo que desgosta em você.

Porém, durante a quinta temporada, quando a participante Roxxxy teve uma pequena crise de nervos durante a lyp sync battle (quando uma participante precisa dublar uma música contra outra participante pela chance de continuar no programa), e pôs-se a chorar sobre o abandono de sua mãe e seus medos e traumas do passado, fomos capazes de ver o verdadeiro significado de sororidade.

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Todas as participantes do programa tinham um objetivo em comum, que é chegar a final e tornarem-se as grandes rainhas, mas elas se lembraram ali que todxs nós enfrentamos nossas próprias batalhas, e nem sempre deixamos transparecer.

O abraço das mulheres que um dia tratavam-se como “frenemies” transmitiu a essência do que é sororidade e do que é empatia: é ser sensível as dores e aos problemas alheios, e reconhecer que todxs agimos de alguma forma por algum motivo.

As pessoas irão utilizar o assédio moral e verbal como forma de defesa e como um método para extravasar suas próprias dores e frustrações, mas cabe a todxs nós manter nossas cabeças erguidas e não revidar a nenhum tipo de ataque, pois ainda falta empatia no mundo e precisamos dela para seguir vivendo e evoluindo. Então, “shake it off” e “don’t throw that shade, gurl!”.
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Qual Diabo veste Prada?

Como uma mulher que prioriza trabalho e estudos em muitos momentos da minha vida, é muito difícil assistir ao filme inspirado no livro homônimo de Lauren Weisberger sem ficar agoniada. Afinal, o movimento feminista ensinou-me a problematizar diversas coisas.

Ao início do filme podemos observar Andrea, uma mulher que ama sua escolha de bacharelado e que deseja conseguir o emprego que sonha e que considera perfeito. Mas, após não conseguir nenhuma vaga, ela candidata-se para trabalhar como assistente de Miranda Priestly, para que assim possa conseguir contatos que a ajudem em seu futuro; e que possa crescer e aprender coisas novas – além do salário, que era ótimo –.

O Diabo Veste Prada é uma obra que é sobre mulheres, e possui fortes e diferentes mulheres em papéis principais e coadjuvantes. Apesar de o filme passar no teste de Bechdel com um alto grau de aprovação e realmente ser centrado em mulheres e em suas vidas e escolhas, não quer dizer que ele esteja medindo se o filme é justo ou capaz de entreter mulheres. Ou seja, ele possui pontos que merecem ser problematizados.

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Andy trabalha na indústria da moda, e constantemente somos obrigadxs a assistir aos bastidores enfadonhos deste universo; tais bastidores retratam mulheres que são capazes de tomar as atitudes mais destrutivas a ponto de tentarem se tornar “bonitas o suficiente” para conseguirem a aprovação das pessoas que, em suas mentes, são as únicas que importam. Além, é claro, de julgar todas as atitudes tomadas por cada uma, errôneas ou não.

Ao início do filme, Andy está sendo entrevistada para sua futura vaga, e já é avaliada da cabeça aos pés por “não pertencer aquele mundo” e não fazer jus ao padrão esperado. Mas, após conseguir o emprego seu colega de trabalho, Nigel, a ajuda e a transforma completamente, e só após isso ela ganha respeito como profissional. Porque, é claro, beleza está acima de tudo.

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Mas, ao longo do filme certos comportamentos tornam o material apresentado cada vez mais destrutivo. Após defender o estilo de vida de sua chefe, além de suas atitudes, Andy sofre retaliação de todos a sua volta, e na mente deles – após adotar um estilo diferente do que estavam acostumados – ela se vendeu para um mundo que todos consideravam asqueroso.

O que Andy fazia de tão asqueroso? Ela defendia uma mulher que sempre trabalhou duro para conseguir o que queria (apesar dos pesares), ela trabalha em algo que não a deixa completamente satisfeita para que consiga, futuramente, prosperar (o que fez com que ela tomasse atitudes drásticas que afetaram sua colega de trabalho, Emily), sacrificou muito de sua vida pessoal e mudou seu visual para algo que ela realmente pudesse gostar e ser capaz de aceitar quem ela é. Se ela fosse um homem, a retaliação seria a mesma ou tudo seria considerado normal?

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O filme, infelizmente, passa a mensagem de que se você se esforçar além do esperado em seu emprego, você estará se vendendo para o sistema do qual agora faz parte. Além, é claro, de apresentar uma mulher incrivelmente bem sucedida como o “Diabo” em pessoa, e que, é claro, veste Prada. Mais uma vez eu xs questiono: seria da mesma forma se Miranda Priestly fosse um homem?

Ao lutar ao favor do feminismo estamos lutando por direitos iguais para ambos os sexos, e com isso seremos agraciadxs com melhores condições assalariais e, conseguintemente, com a melhor compreensão do papel da mulher no mercado de trabalho (além, óbvio, de muitos outros fatores importantíssimos), para que tais comportamentos e opiniões errôneas não mais aconteçam.

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All Lives Matter.

A história da humanidade sempre foi manchada por preconceito racial, este vindo de civis ou de forças policiais. Estes, que são uns dos principais responsáveis por nossa integridade física, nos deixam a mercê de atos de pura barbárie em que nem mesmo um traje de super-herói pode nos proteger.

A vida de Hector Ayala – também conhecido como White Tiger – permanece desconhecida por muitos até os dias de hoje. Nascido em San Juan, Porto Rico, Ayala é um dos super-heróis que fazem parte do acervo da Marvel; um universitário que encontrou os preciosos amuletos de tigre, que conferiam a ele habilidades incríveis que o transformavam no super-humano White Tiger.

O início de sua carreira como super-herói foi marcado por turbulências que (devido a situação em que nos encontramos após os protestos de Ferguson) não podem – e não devem – passar despercebidas.

White_Tiger_Hector_h14Tudo começou com um dos ataques da gangue Nomads a um policial, que resultou no homicídio de Kid Lopez, que ao tentar arrematar um tiro em Ayala, foi mortalmente atingido por sua vítima inicial. A revolta interna do poderoso White Tiger começou neste momento, quando viu a vida desaparecer dos olhos de Lopez quando acreditava poder ser capaz de guiá-lo para fora do mundo da violência. Por ter suas digitais armazenadas no Departamento de Polícia de Nova York e elas terem sido encontradas na cena do crime, Ayala foi acusado de assassinato. E, também, após ser vítima de um triste acaso de coincidência, o famoso White Tiger foi acusado de assassinar o pai de Jack of Hearts, novamente tornando-se culpado por algo que não cometeu.

Mas, a fatalidade real de sua carreira foi quando, após brigar com sua esposa, Hector resolveu caminhar para espairecer, quando tombou com Sanchez e Mikey, que haviam acabado de assassinar um policial após roubar uma loja de penhores. Devido ao susto, Sanchez jogou a televisão que havia roubado nas mãos de Hector, deixando-o parado com o objeto furtado diante do corpo sem vida da vítima.

Não conseguindo ser inocentado no tribunal mesmo com a ajuda de seus advogados, Paul Delacourt e Matt Murdock (mais conhecido como Demolidor), Hector agrediu dois policiais, fugindo para os degraus da corte com a arma de um deles em punho. Por não parar apesar das ordens oficiais, ele foi assassinado à queima roupa, tornando-se considerado inocente após seu falecimento.

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Apesar dos detalhes um tanto quanto racistas de sua história, que relatavam seu irmão Filippo como um viciado em diversas drogas, e todos os envolvidos nos crimes que acabaram por indiciá-lo como suspeito também possuindo origem latina, a trama nos oferece pontos incríveis para pensarmos sobre o preconceito com o qual não deveríamos ser obrigados a conviver.

Após os acontecimentos de Ferguson, que começaram com o assassinato à queima roupa do jovem Michael Brown, de apenas dezoito anos, que estava desarmado e rendeu-se por completo para o policial que o assassinou, podemos observar o quão somos afetados por este mal.

Nós que somos de origem latina poderíamos ser tratados da mesma forma que o jovem estudante Michael Brown, que era negro, estadunidense, e que acabou tendo um trágico fim por mãos oficiais caucasianas. Não querendo acreditar na veracidade das palavras de Brown, o policial Darren Wilson desferiu um tiro à queima roupa e após estar caído no chão, desferiu outros nove tiros.

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O jornal Los Angeles Times reportou que 48 dos 53 policiais que fazem parte do departamento de polícia de Ferguson são brancos, enquanto 65% da população é negra. Um destes 48 ainda é Darren Wilson, que foi inocentado de todas as acusações. O quão absurdo torna-se esta situação?

 O desumano destino de Brown motivou as manifestações de Ferguson, onde habitantes da cidade circulavam com cartazes que diziam “Black Lives Matter” (Vidas Negras Importam), apontando para o fato de que negros não são inferiores em nada, muito menos em importância, e que suas vidas importam tanto quanto qualquer outra.

Se o rapaz assassinado fosse um jovem estudante caucasiano, qual seria o fim de Darren Wilson? Provavelmente seria diferente. Quantos jovens negros e latinos são assassinados e que, infelizmente, não recebem a mesma importância, ou são retratados criminalmente pelas mídias de massa?

Vivemos em uma sociedade que é obrigada a conviver com opiniões e tendências preconceituosas, mas não deveria ser assim. Enquanto muitos retratam o preconceito como algo intrínseco ao ser humano, eu me questiono quantos episódios similares ao de Hector Ayala e ao do jovem Michael Brown continuarão a acontecer até que nos tornemos livres deste mal que nos atormenta.

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50 tons de?

O simples ato de começar a buscar compreender sua sexualidade é alvo de críticas até os dias de hoje. O mais confuso nisto é que homens sempre tiveram direito a descobrir do que gostam, sempre tiveram seus fetiches expostos livremente e são donos de uma “erotica” bem construída. Mas, se a “cool girl” pensar e ousar falar que gostaria de ser beijada ou tocada com mais intensidade, ou simplesmente cogitar ter fetiches, ela torna-se impura. Quando nossa sexualidade tornou-se algo impróprio para o nosso ser?

Quando somos apresentados a algum ambiente ao qual não estamos completamente familiarizados é normal mostrar sinais de aversão, procurar defeitos e apontá-los, mas seriam estas imperfeições reais? Será que não estamos apenas observando a história superficialmente?

Durante toda a história narrada por E. L. James podemos observar a jovem mulher Anastasia Steele, que tem 21 anos, é virgem e está no último período de sua faculdade. Uma mulher que não conhece perfeitamente sua sexualidade e começará a descobri-la cada vez mais com o auxílio de seu primeiro parceiro sexual, Christian Grey.kq_fifty-shades-of-grey_videothumb-620x349

Para muitos, a relação que Ana construiu com Christian pode ser considerada abusiva, onde Christian a comanda por completo, analisando-a friamente e determinando o que ela deve ou não fazer; Ana chega a perder o senso de si, acreditando profundamente que seu primeiro parceiro sexual deseja, friamente, moldá-la e fazer com que ela se transforme em algo que não é.

Para estes mesmos leitores da obra de James – mesmo que um trabalho criativo de ficção – a relação retratada reflete a realidade de muitos que ainda vivem em relacionamentos abusivos. Mas, a diferença entre a prática do sadomasoquismo entre um casal onde existe consentimento e de uma relação abusiva é gigantesca.

Anastasia possui poder de decisão sobre tudo que faz e sobre o que será infringido a ela. O que quer dizer que, se ela desejar terminar, por completo, a relação que possui com Christian, tudo que ela precisa fazer é cancelar o contrato. Então nos deparamos com uma grande muralha – muralha esta que separa, perfeitamente, relacionamentos abusivos de relacionamentos com prática de sadomasoquismo.-55b67aa7-8574-47c3-af87-a9703739f3b8

Os estudos feitos pelo Journal of Women’s Health acabaram trazendo um ponto de vista diferente para nos ajudar a entender melhor a situação em que nos encontramos. Tais estudos apontaram que em uma amostra de 650 mulheres estudadas na faixa de 18-24 anos, leitoras de 50 Tons de Cinza tem 25% mais de chance de ter um parceiro que xingue ou grite com elas, 34% de chance de ter um parceiro que possa apresentar tendências que o classifiquem como um stalker e  74% de chance de jejuarem durante 24 horas e utilizarem auxílio de produtos de dieta. Mas, o estudo falhou em determinar se estas mesmas mulheres apresentavam estes comportamentos antes ou depois da leitura, e não foram capazes de dizer se a leitura contribuiu ou criou estas ocorrências.

O mais interessante neste ponto de vista é que ele não contabiliza anos de subordinação a padrões estéticos atribuídos a mulheres, que ao tentarem, em um último momento de desespero, enquadraram-se no que é considerado belo acabam por recorrer a distúrbios como a bulimia e a anorexia.

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O grande problema está em produtos midiáticos que bombardeiam a sociedade há anos com mensagens que servem para agradar somente aqueles que as criam; como a submissão da mulher ao homem, o padrão de beleza feminino e sobre quais são os comportamentos adequados e inadequados para tornar a figura feminina digna de respeito. Logo, não é 50 Tons de Cinza o problema na vida destas 650 mulheres (e muitas mais que ainda sofrem), e sim o que consideramos certo e errado e tentamos, com todas as forças, transformar em verdade absoluta.

50 Tons de Cinza não impede que as mulheres caminhem em direção a seu próprio bem estar, e sim as incentiva a buscar, cada vez mais, o conhecimento sobre sua própria sexualidade – seus gostos e prazeres.

 A história de E. L. James recebeu um enfoque um tanto quanto diferente do livro em sua adaptação cinematográfica, nos entregou uma Anastasia mais independente e menos obcecada, ela tornou-se uma figura mais palpável e alguém que gostaríamos de conhecer; ele nos apresentou, de fato, o que importa em suas páginas: o descobrimento sexual de uma mulher – a forma como ela começa a conhecer seu corpo, seus gostos e sua sexualidade. Estamos falando de uma jovem mulher que, assim como a maioria ao redor do planeta, está finalmente se descobrindo e percebendo que não existe nenhum problema nisso.

50 tons de notas da editora: 

Após repassar mentalmente algumas passagens dos três livros da trilogia criada por E. L. James, e relê-los com o cuidado e a atenção que eles merecem, fiquei um tanto quanto transtornada em como fui leviana com o que não deveria ter sido.

Ao falarmos do relacionamento que Christian e Anastasia possuem, alguns diálogos representam muito bem o dia a dia de relacionamentos abusivos – como Christian batendo com as mãos em punho sobre a mesa e gritando com Ana, ofendendo-a, ou após ela negar-se a certos atos sexuais e ser ameaçada, e até mesmo quando Christian diz que ela não tem para onde fugir, que nem mesmo o Alaska é longe o suficiente, pois ele sempre poderá encontrá-la.

É lógico que, ao falarmos de relações onde existe a prática de BDSM, iremos presenciar técnicas como bondage, choking, tapas, etc. que fazem o uso da “safe word” válido quando @ submiss@ está sendo infringid@ a mais do que pode suportar; mas, 50 Tons de Cinza relata superficialmente o que é a prática do BDSM, que pode acontecer em relacionamentos onde existe o ato sexual ou não.

Christian possui, sim, atitudes características de relacionamentos amorosos onde existe a prática do abuso (sendo ele mental ou físico), com aspectos violentos e hostis. Mas, 50 Tons de Cinza, apesar disto, trata sobre o descobrimento sexual de uma mulher, e a adaptação cinematográfica tenta enfatizar a positividade que existe em descobrir nossa sexualidade.

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A dura realidade de Garota Exemplar.

A interpretação do público sobre a história criada – e conseqüentemente adaptada para as salas de cinema – por Gillian Flynn pode ser extremamente falha. Enquanto grande parte dos consumidores ofende uma personagem chamando-a de insana e de imbecil por ter acusado falsamente dois homens de estupro, a observação geral que deveria ter sido feita se perde na escuridão. Será que realmente somos o projeto do ambiente em que vivemos? Não seria Garota Exemplar uma das melhores exemplificações da sociedade em que nos encontramos?

Enquanto muitos comentários na internet acusam erroneamente Flynn de misoginia, eu questiono quantos realmente se importaram em adentrar o ambiente que lhes era oferecido (na mente de suas personagens e tudo que as cercava). Ao observar superficialmente pode-se ver uma mulher cansada, mas do quê exatamente ela se cansou? Seria você capaz de dizer?

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A realidade sobre o quão feminista é a obra criada por Flynn não deve ser considerada relativa; ela é uma pequena versão do que é o feminismo atualmente. Apesar de nossa protagonista ter se utilizado de algo que denigre as mulheres desde as histórias bíblicas (Gênesis, capítulo 39: a esposa de Potifar e o escravo José), classificando-as como seres perigosos que usam o sexo como arma, não reduz o quão brilhante a obra que temos em mãos é. O fato de Amy ter acusado falsamente dois homens de estupro não torna a situação de “crying out rape” comum em nossa sociedade; em produtos criados para o nosso entretenimento, uma passagem como essa faz com que o consumidor fique confuso e permite que a história caminhe, criando, assim, empatia da forma mais crua e sensível que podemos imaginar.

O mais recente estudo feito pela Crown Prosecution Service provou que a ideia cultural que se têm de que as falsas alegações de estupro prevalecem sobre as verdadeiras é errônea; o estudo reporta que em um período de 17 meses foram feitas 5.651 acusações de estupro, mas apenas 35 eram falsas. E as acusações feitas por menores de 18 anos partem, em 40% das vezes, de seus pais, o que reduz o número de falsas alegações ainda mais.

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A dura realidade é que Garota Exemplar retrata a maioria dos relacionamentos que podem ser observados em nossa sociedade; e ao falarmos de relacionamentos em paralelo a obra de Flynn, não falamos somente dos casais que caminham por sob a Terra.

Amy Elliott Dunne é o produto de todos os meios aos quais foi obrigada a habitar. Sempre pressionada a ser a garota exemplar que obtinha sucesso em tudo que se obstinava a fazer, Amy era oprimida por seus pais, as únicas pessoas que são obrigadas a aceitá-la como ela é. Eles fizeram mais do que plagiar sua vida e entregar para as massas em estantes de livrarias, eles a moldaram como acreditavam que ela deveria ser; em suas visões deturpadas e confusas, eles melhoraram-na. E, conforme Amy vivia sua vida, ela via-se obrigada a viver sob os padrões que todas as mulheres são obrigadas a enfrentar: a esposa carinhosa, a boa mãe, a mulher incrível… A “cool girl” que encanta os homens, este sendo o maior elogio que eles podem pensar em fazer a uma mulher.

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Todos os homens em sua vida procuraram moldá-la para que ela fosse o que eles gostariam de ter em suas vidas, de Desi a Nick. E ao falarmos deste, temos um marido sem senso de direção que se torna hostil e entediante após perder seu emprego de escritor em uma revista. Um homem que vê sua mulher como a total controladora de sua única fonte de renda e de todo o seu dinheiro. Futuramente, ele a verá como a “vadia psicopata”.

Um homem que, perdido em sua vida e cansado do que se tornou sua garota descolada, encontra carinho e alegria momentânea na versão mais jovem de sua linda e loira garota descolada, que comia pizza fria e asinhas de frango e ainda assim conseguia continuar vestindo 36.

Nick não consegue ver que está afetando e abusando de Amy devido ao ambiente que impõe porque ele é a figura central do ambiente que está impondo a uma mulher. A história de Amy – tudo que ela deseja ser, quem ela é e o que ela gosta – anda algemada ao seu desaparecimento.

Garota Exemplar reflete a dura realidade a qual seres humanos são obrigados a enfrentar, e nos faz pensar se não somos todos nós garot@s descolad@s tentando agradar a alguém. Afinal, todos somos frutos do ambiente em que somos obrigados a conviver.

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Panem et circenses.

Todo mundo que leu ou assistiu a Jogos Vorazes irá te dizer, empolgadamente, que é um “must read/see”, e que você não pode deixar passar. Mas o que torna a obra criada por Suzanne Collins uma obra fundamental na vida de alguém? O banho de sangue dos jogos ou a crítica social brilhantemente construída?

A interpretação distorcida da história criada por Suzanne na mente dos consumidores acontece há um bom tempo, mas me questiono se eles chegaram a enxergar e absorver o que de fato ela almejava contribuir para seus pensamentos.

Quando falamos de marcas como Hunger Games, Crepúsculo e Harry Potter, nós sabemos que o brand equity delas é estratosférico; brand equity nada mais é que o valor de uma marca, ou seja, seu grau de lembrança, assim como a fidelidade dos consumidores para com o produto oferecido (é válido lembrar que o pin do tordo, símbolo das classes trabalhadoras e da rebelião contra o elitismo, é distribuído em cinemas por todo o mundo junto com o combo da sua pipoca, ou você pode simplesmente comprar por cerca de R$30 na internet). Foram vendidas mais de 24.000.000 exemplares só nos Estados Unidos, a bilheteria foi cerca de US$100.000.000 só na semana de estréia e as camisetas, fantasias e action figures vendem como água no mundo inteiro.

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Obviamente não é errado eles desejarem arrecadar cada vez mais dinheiro com o produto oferecido, mas quando se começa a desvirtuar a compreensão que o consumidor deve ter da crítica social brilhantemente escrita por Suzanne, é claro que teremos um problema.

É válido citar que a história é ambientada de acordo com a política de pão e circo (Panem et circenses) implantada pelos romanos, na época dos gloriosos gladiadores; nela o governante irá oferecer a sociedade governada, que está com sérios problemas – como inanição, saúde precária e falta de saneamento básico –, alimentação e entretenimento para que os governados não se revoltem contra quem os desumaniza. Veja só, não é isso o que o presidente Snow faz em Panem?

A Capital criada pela autora não é nada mais que uma crítica social com um visual exagerado da nossa sociedade. Ela quis retratar nossos maiores defeitos, como o conformismo, o consumismo e a futilidade. São personagens que possuem pouquíssimo senso crítico e que ignoram o que está acontecendo a sua volta, como o início de revoltas populares, a desnutrição e as péssimas condições de vida de muitos distritos.

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Enquanto terríveis embates acontecem diariamente ao redor do mundo, como as revoltas de Ferguson, revoltas na Austrália e o movimento iniciado pelas meninas da Pussy Riot na Rússia, o que a maioria das pessoas que você conhece fez ou falou? Sobre os movimentos ou sobre outros assuntos? Quantas pessoas você conhece que realmente se engajaram nos tópicos citados?

Será que aqueles que estão diretamente associados com a produção e com o desejo implantado no público que irá favorecer o culto ao que é oferecido, compreendem a essência do que eles possuem em suas mãos? Do valor arrecadado, quanto foi doado para causas endossadas durante a trilogia, como países com revoluções civis, desnutrição e péssimas condições de trabalho? Nada. A Lionsgate, na verdade, convida você para doar US$5 para a causa apoiada pela World Food Programme e Feeding America.

A obra de Suzanne é extremamente densa e bem elaborada, é uma obra distópica que tem como objetivo principal do gênero alertar a sociedade para o que está acontecendo a sua volta. Se analisarmos com olhos críticos, a sociedade em que vivemos é a Capital governada por Snow. Nossa mente e a forma com que lidamos com as coisas ao nosso redor não é algo preto no branco, é colorido e abstrato. Somos fúteis, vaidosos e consumistas, mas não somos tão conformados assim, e muitas vezes tentamos fazer algo, mas somos resilientes o suficiente para aceitar viver no ambiente que sofre mudanças das quais desgostamos.

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Se encararmos o mundo e todos os seus países, quantos dos bilhões de habitantes ainda vivos se rebelaram, de fato, contra seus governantes? Agora considere apenas os habitantes que cultuam Jogos Vorazes e que dizem que Katniss é quem eles são, a verdadeira inspiração deles, quantos são? Apenas alguns habitantes da Tailândia que levantam três dedos, assim como os habitantes de Panem ao apoiarem Katniss durante a revolução, contra seus governantes. Hoje em dia o símbolo é proibido dentro do país, que sofreu ameaças de protestos de estudantes contra o golpe militar.

Felizmente não somos obrigados a viver com o peso dos jogos vorazes (ou com o massacre quaternário) e com as conseqüências que ele traz para o dia a dia da sociedade. Ou será que somos e não temos consciência disso? Mas, vamos voltar a nos preocupar mais com quem é o mais bonito, se é o Peeta, Gale ou Finnick, e ignorar a crítica social de Jogos Vorazes.

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Obrigada pelos peixes!

Queridos leitores, nós estamos juntos a pouco mais de cinco anos – dia 25 de maio completaremos seis, não estão animados? NÃO! Porque vocês não sabiam! – desde minha primeira postagem, quando o blog ainda se fazia presente em layouts pré-estabelecidos e domínios comuns de blogspot, percebam como isso tem tempo. Agora, veja aonde chegamos: temos domínio próprio e um layout próprio, mas o blog não é mais o mesmo, e por isso eu peço desculpas.

A vida é atarefada para todos nós, e criar conteúdo fica complicado inúmeras vezes, assim como encontrar tempo para ler aquele livro que está acumulando poeira na prateleira. Então, por muitas semanas o blog ficou parado, sem nada de novo para entreter nenhum de vocês que sempre me deram carinho e atenção. Que sempre se fizeram presentes com seus comentários e visitas.

Por isso, eu tomei uma decisão há um tempo, eu ia começar a criar conteúdo, ia me planejar, dessa vez ia dar certo.  E deu, até não dar mais… Até não ter mais tempo para ter conteúdo, porque eu perdia o timing do planejamento, e como isso se fazia possível, eu não sei explicar.

Foi quando eu passei a perceber que não importava quantas pesquisas eu rodasse online para estudar o comportamento do consumidor de blogs sobre literatura e cultura pop, se eu não me planejasse e me dedicasse mais a isso e a vocês, nada ia mudar; então eu tomei uma decisão e resolvi dar alguns passos (“talvez maiores que as suas pernas”, alguns poderão dizer): o planejamento vai melhorar e vai funcionar, assim como o conteúdo das postagens.

As postagens serão diferentes, mas se acalmem porque nós continuaremos tendo resenhas, vídeos do que eu comprei esporadicamente – porque eu planejo comprar menos, então rezem para isso! – e outros eventuais conteúdos. E o layout vai mudar, e mudar para melhor.

Mas, eu queria saber de vocês, que sempre me acompanharam, ou que chegaram aqui agora: o que vocês gostariam de ver no futuro do blog? O que os motivaria a participar ainda mais?

Obrigada por estarem comigo até o dia de hoje, o carinho de vocês é muito importante. Um beijo e boas férias.

“Maze Runner: Correr ou Morrer”, um filme de Wes Ball.

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Maze Runner: Correr ou Morrer é um filme roteirizado por Noah Oppenheim, baseado no livro homônimo de James Dashner e dirigido por Wess Ball, que foi lançado no Brasil em setembro de 2014.

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Título Original: The Maze Runner
País de Origem: Estados Unidos
Direção: Wes Ball
Roteiro:  Noah Oppenheim
Gênero: Ficção Científica/Mistério/Ação/Suspense
Produtora: 20th Century Fox
Distribuição: 20th Century Fox

filme3Ao acordar dentro de um escuro elevador em movimento, a única coisa que Thomas consegue lembrar é de seu nome. Sua memória está completamente apagada. Mas ele não está sozinho. Quando a caixa metálica chega a seu destino e as portas se abrem, Thomas se vê rodeado por garotos que o acolhem e o apresentam à Clareira, um espaço aberto cercado por muros gigantescos. Assim como Thomas, nenhum deles sabe como foi parar ali, nem por quê. Sabem apenas que todas as manhãs as portas de pedra do Labirinto que os cerca se abrem, e, à noite, se fecham. E que a cada trinta dias um novo garoto é entregue pelo elevador. Porém, um fato altera de forma radical a rotina do lugar – chega uma garota, a primeira enviada à Clareira. E mais surpreendente ainda é a mensagem que ela traz consigo. Thomas será mais importante do que imagina, mas para isso terá de descobrir os sombrios segredos guardados em sua mente e correr, correr muito.” (do Wikipédia mesmo, porque eu não saberia escrever sem contar spoilers 😉 )

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Dylan O’Brien interpreta Thomas e já trabalhou em Teen Wolf Os Estagiários.
Aml Ameen interpreta Alby e já trabalhou em O Mordomo da Casa Branca A Lei de Harry.
Ki Hong Lee interpreta Minho e já trabalhou em The Nine Lives of Chloe King New Girl.
Thomas Brodie-Sangster interpreta Newt e já trabalhou em Game of Thrones Doctor Who.
Kaya Scodelario interpreta Teresa e já trabalhou em Skins True Love.
Will Poulter interpreta Gally e já trabalhou em Família do Bagulho O Filho de Rambow.

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Antes de começar a resenhar o filme, gostaria de dizer que não li o livro e não tive acesso a ele (até agora, já comprei minha edição em hardcover no site da Cultura e até o dia 07/10 ela chega aqui em casa!), e fui assisti-lo sabendo de alguns spoilers, mas nada muito significativo.

A trama começa de forma empolgante, apesar de dar pouco ou nenhum detalhe para nós, meros espectadores (ou seja, quem não leu o livro); ela não é condescendente conosco. Porém, alguns aspectos eu achei um tanto quanto previsíveis ao final do longa, principalmente se você levar em conta alguns diálogos, que fui descobrir que não ocorrem  no livro.

O ritmo do filme é ótimo, ele possui seus momentos mais calmos, mas não significa que ele fica entediante. Suas cenas de ação são boas cenas de ação, e suas cenas de cotidiano, digamos assim, conseguem passar a atmosfera da vida dentro da clareira, do espírito e da “vibe” de cada uma das personagens; ilustra melhor a história, nos da mais profundidade.

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Não estamos falando de um filme adulto, então não é nada muito “perfeitamente retratado” em questão de violência. Ela é clara e bem representada, mas quesitos como ferimentos, embates e pontos assim são bem camuflados para não serem tão focados pelas câmeras.

Em questão de personagens, não achei muito interessante a forma como Gally foi retratado (me contaram que é muito diferente nos livros), pois ele é um tanto misógino, e a própria Teresa é extremamente diminuída em uma sociedade onde não deveria haver preconceitos, pois se ninguém se lembra de nada além de seu nome, e coexistem com etnias diferentes, porque uma mulher seria o problema?

Consideração após assistir ao filme pela segunda vez: o Gally não é machista, pulei para uma conclusão por toda uma “raiva” que eu tenho da nossa sociedade, o que me levou a interpretar errado alguns acontecimentos do filme. Mas Deus foi lindo e fui assistir de novo, e oh, estava equivocada e entendi os motivos do “ódio” do Gally, que é uma personagem bem complexa, por sinal. Gotta love. 

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Espero que entendam que toda minha opinião é minha, não tenho cacife para julgar atuação e quesitos artísticos além de uma mera análise visual, e foi o que tentei fazer. O filme, apesar de ter um final extremamente previsível, é bom e não deixou a desejar. Não vejo a hora de ler o livro.

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