Intercâmbio de trabalho na Disney!

Depois de um agonizante primeiro semestre, esperando o que se tornaria o epílogo da história da minha vida, a resposta do sonho que eu venho nutrindo desde meus 10 anos chega: quinta-feira, dia 27 de agosto, eu recebi minha oferta de trabalho para o Walt Disney World na Flórida. Sim, eu fui contratada, oficialmente, pelo Mickey Mouse.

O Cultural Exchange Program (CEP, que também é conhecido como International College Program, ou ICP) é um programa de experiência internacional de trabalho como muitos que existem, porém este é oferecido pela própria Walt Disney Company. Ele dura, aproximadamente, três meses e ocorre no nosso período de férias de verão (de novembro a fevereiro).

Os jovens interessados em se tornarem cast members na Flórida devem estar dentro de alguns requisitos: ter mais de 18 anos, estar entre o segundo e o sétimo período de alguma faculdade credenciada pelo MEC, ter como arcar com as necessidades financeiras do programa e, é claro, habilidades na língua inglesa.

1006301_538691576184695_854320167_n

O programa está disponível para mais de dez países e no Brasil, a agência de turismo que fica encarregada da primeira etapa do processo – assim como ajudam a organizar a segunda etapa e auxiliam os aprovados em qualquer situação – é a Student Travel Bureau, ou apenas STB.

Se assim como eu, você tem uma vontade enorme de realizar este sonho e gostaria de saber mais é bem simples: o processo abre todos os anos e possui duas etapas, a primeira é realizada em diversas cidades brasileiras, como Rio de Janeiro, Porto Alegre e São Paulo, por exemplo. Já a segunda ocorre somente em São Paulo. Mas, o que acontece nelas e o que eu preciso levar?  A primeira etapa consiste em uma palestra em português com os recrutadores da STB (e ela é obrigatória!) e uma entrevista em inglês com os mesmos; eles buscarão priorizar pessoas de fora do Estado em que a mesma estiver sendo realizada.

As entrevistas são rápidas e tranquilas e podem demorar de 5 a 20 minutos, depende de como você e o recrutador conduzirem a conversa. Nela você deverá levar uma foto 5×7, o contrato do programa impresso e assinado, a role check list da Disney preenchida, seu currículo em inglês e uma carta de interesse também em inglês. Os documentos serão disponibilizados pela própria agência conforme a data da primeira palestra estiver próxima, e tais datas são disponibilizadas através do site (mas se você fizer parte do grupo do programa no facebook – Futuros Disney Cast Members – você terá tudo disponibilizado por outros participantes, que serão adoráveis e repassarão as informações.

Ok, eu fui aprovadx na primeira fase! E agora? Agora você vai preencher o que a Disney solicitar (a application e vai enviar os mesmos DOCs que você levou para STB no Disney DOCs). Enviei tudo, o que eu faço?  Acalma o seu coração, porque agora a Disney vai avaliar sua application e se estiver tudo correto nela, eles enviarão um e-mail solicitando que você marque a data que lhe for mais conveniente e o horário, assim como preencher a role checklist oficial. Como o sistema é “first come first served” (ou seja, quem chegar primeiro terá prioridade) pessoas de fora do Estado de São Paulo não serão priorizadas, então fique atentx ao seu e-mail e faça tudo com muita calma!

Cheguei em São Paulo! Compareça a sua palestra, que desta vez será em inglês com a recrutadora oficial da Disney, a Regina, e esta também é obrigatória. Após a palestra você tem que manter a calma, porque as entrevistas começam no dia seguinte. Entrevista esta que é mais tranquila do que parece, e ela ocorre no prédio oficial da The Walt Disney Company Brasil, localizado na Av. das Nações Unidas.

Cheguei na Disney! Depois que você entrar no prédio e informar tudo na recepção, a STB chamará a janela vigente (as entrevistas ocorrem em janelas, ou seja, se você marcou de 16:00h – 17:00h como eu, você poderá ser entrevistadx a qualquer momento dentro desta janela) e você irá ser redirecionadx ao respectivo andar. Este ano foi no andar da Rádio Disney, aonde todxs esperavamos na sala de espera enquanto xs recrutadores nos chamariam pelos nossos nomes. Foram entrevistas individuais e todo e qualquer tipo de pergunta poderia ser feita, por incrível que pareça.

10419023_741269229260261_4378967509527415361_n

Eu fui entrevistada pela Stephanie, uma adorável recrutadora que é de Indiana e mora atualmente em Orlando. A entrevista fluiu extremamente bem e ela foi muito simpática (e muitos pensam em sinais, mas é quase impossível perceber os sinais que indicariam seu status).

Ai, fiz a entrevista! E agora? Agora respira e espera, porque eles tem de 5 dias a 3 semanas para enviar os resultados, e ele vem em ondas. E o meu chegou na primeira semana, embarco dia 27 de novembro e retorno dia 5 de fevereiro e trabalharei como Quick Service Food and Beverage. Ou seja, trabalharei nos restaurantes de rápido atendimento nos parques e resorts.

Aonde exatamente? Nem eu sei, e só descobrirei durante o meu Traditions, que é como se fosse o treinamento e a preparação para nos tornarmos cast members de verdade.

Screen shot 2015-09-03 at 17.42.44

E pra esquecer cada vez mais da vida no Brasil e colocar a cabeça lá na magia da Disney, é óbvio que eu tenho uma playlist que me viciou no Spotify (e que eu já sigo) e uma no iPhone, com diversas músicas Disney related ou não. Além, é claro, de sintonizar cada dia mais no canal Disney na TV.

Obviamente eu estarei atualizando tanto o blog quanto as outras redes sociais antes e durante o meu programa, e espero que vocês fiquem ligados!

Screen shot 2015-09-03 at 16.56.55

 

RuPaul e as querelas da vida real.

RuPaul Charles (Novembro 17, 1960) é, sem sombra de dúvidas, a drag queen norte-americana mais bem sucedida comercialmente. Ela tornou-se famosa no início dos anos 90, quando lançou seu primeiro hit “Supermodel” e hoje em dia, é a apresentadora do programa que computa o maior nível de ratings de audiência em toda a história da Logo Network.

No dia do lançamento do primeiro episódio da quinta temporada de RuPaul’s Drag Race mais de 1.3 milhões de telespectadores estavam sintonizados na Logo Network, tornando o episódio a series premiere com o maior nível de ratings da história da emissora; e ao falarmos de mídias sociais, ocorreu um aumento de 136% em relação a premiere da quarta temporada.

rupaul-cover-hed-2014

Após mais de uma década de programas televisivos (tendo início em 1996 com o já finalizado “The RuPaul Show” até 2015, com shows como “RuPaul’s Drag Race” e “Good Work”), o sucesso de RuPaul e suas queens não é computado somente através de ratings e coroas.

Ao aproximar a cultura gay pop da cultura pop e tornando tudo mainstream, RuPaul não foi somente responsável por tornar consciente todos os cis que assistem ou não ao seu programa, mas ela iluminou um problema que permeia a cultura pop há anos.

Gírias como “realness”, “yas”, “shade” e “work, girl” parecem ter saído do vocabulário popular de mulheres cis norte-americanas e que foram adotados por brasileirxs, britânicxs, orientais, etc. Mas é exatamente o oposto, tais girias nasceram no vocabulário popular da comunidade gay – para ser mais precisa, na comunidade de drag queens norte-americana (apesar de algumas terem nascido na Escócia e terem sido encorporadas na cultura negra norte-americana e na cultura gay há alguns anos).

tumblr_n2yft0T27y1qlvwnco1_500

Hoje em dia, estas vem tornando-se cada vez mais populares conforme a popularização de RuPaul, seus programas de TV e das drag queens. Conforme caminha a sociedade em direção a compreensão de diferentes sexualidades e identificações de gênero, uma coisa ainda é incerta: o nível de empatia entre os seres humanos.

Mesmo RuPaul transparecendo a essência que sempre desejou e iluminando o trabalho das drag queens para enfatizar a realidade: drag não é um trabalho superficial; ela reenforça a ideia de sororidade e irmandade. Mas, alguns episódios ainda continuam conectados a falsa realidade marketizada por anos, de que drag = “I’m not here to make friends”.

O termo “frenemies” existe há alguns anos na cultura pop, e consegue ser traduzido como “aminimigxs”, ou seja, uma espécie de fusão de amigx com inimigx e tornando-se uma pessoa só na vida de outro alguém.

Enquanto mulheres e adolescents são jogadas umas contra as outras em produtos feitos para o entretenimento delas, homens ficam com a parte adorável denominada “bromance”, uma mistura de romance com irmandade.

Obviamente que o termo “frenemies” se aplica a vida real de muitos homens por aí, porém ele é deixado somente para a realidade, ao retratar a rivalidade entre dois homens na cultura pop ela é somente isto, uma rivalidade.

tumblr_n8ofa2S9Oy1qfpuqoo2_500

Com o distanciamente das pessoas devido a imersão em produtos tecnológicos e em seus próprios problemas e frustações, muitxs se esqueceram do que é empatia e do que é se colocar no lugar dx outrx.

Diferentes episódios de RuPaul’s Drag Race retratam perfeitamente a melhor definição do que significa “frenemie”: alguém que te trata docemente, porém quando está sozinhx ou com outra pessoa – no caso do reality show, sozinhas com uma camera – é rápidx ao denigrir sua imagem e algo que desgosta em você.

Porém, durante a quinta temporada, quando a participante Roxxxy teve uma pequena crise de nervos durante a lyp sync battle (quando uma participante precisa dublar uma música contra outra participante pela chance de continuar no programa), e pôs-se a chorar sobre o abandono de sua mãe e seus medos e traumas do passado, fomos capazes de ver o verdadeiro significado de sororidade.

tumblr_inline_miqpxqPD1U1qz4rgp

Todas as participantes do programa tinham um objetivo em comum, que é chegar a final e tornarem-se as grandes rainhas, mas elas se lembraram ali que todxs nós enfrentamos nossas próprias batalhas, e nem sempre deixamos transparecer.

O abraço das mulheres que um dia tratavam-se como “frenemies” transmitiu a essência do que é sororidade e do que é empatia: é ser sensível as dores e aos problemas alheios, e reconhecer que todxs agimos de alguma forma por algum motivo.

As pessoas irão utilizar o assédio moral e verbal como forma de defesa e como um método para extravasar suas próprias dores e frustrações, mas cabe a todxs nós manter nossas cabeças erguidas e não revidar a nenhum tipo de ataque, pois ainda falta empatia no mundo e precisamos dela para seguir vivendo e evoluindo. Então, “shake it off” e “don’t throw that shade, gurl!”.
tumblr_inline_mlmo7ppU0h1qz4rgp

Qual Diabo veste Prada?

Como uma mulher que prioriza trabalho e estudos em muitos momentos da minha vida, é muito difícil assistir ao filme inspirado no livro homônimo de Lauren Weisberger sem ficar agoniada. Afinal, o movimento feminista ensinou-me a problematizar diversas coisas.

Ao início do filme podemos observar Andrea, uma mulher que ama sua escolha de bacharelado e que deseja conseguir o emprego que sonha e que considera perfeito. Mas, após não conseguir nenhuma vaga, ela candidata-se para trabalhar como assistente de Miranda Priestly, para que assim possa conseguir contatos que a ajudem em seu futuro; e que possa crescer e aprender coisas novas – além do salário, que era ótimo –.

O Diabo Veste Prada é uma obra que é sobre mulheres, e possui fortes e diferentes mulheres em papéis principais e coadjuvantes. Apesar de o filme passar no teste de Bechdel com um alto grau de aprovação e realmente ser centrado em mulheres e em suas vidas e escolhas, não quer dizer que ele esteja medindo se o filme é justo ou capaz de entreter mulheres. Ou seja, ele possui pontos que merecem ser problematizados.

AmTnEws0n2tECXkbeeikmkVamsr

Andy trabalha na indústria da moda, e constantemente somos obrigadxs a assistir aos bastidores enfadonhos deste universo; tais bastidores retratam mulheres que são capazes de tomar as atitudes mais destrutivas a ponto de tentarem se tornar “bonitas o suficiente” para conseguirem a aprovação das pessoas que, em suas mentes, são as únicas que importam. Além, é claro, de julgar todas as atitudes tomadas por cada uma, errôneas ou não.

Ao início do filme, Andy está sendo entrevistada para sua futura vaga, e já é avaliada da cabeça aos pés por “não pertencer aquele mundo” e não fazer jus ao padrão esperado. Mas, após conseguir o emprego seu colega de trabalho, Nigel, a ajuda e a transforma completamente, e só após isso ela ganha respeito como profissional. Porque, é claro, beleza está acima de tudo.

andy-sachs-the-devil-wears-prada-204945_1400_929

Mas, ao longo do filme certos comportamentos tornam o material apresentado cada vez mais destrutivo. Após defender o estilo de vida de sua chefe, além de suas atitudes, Andy sofre retaliação de todos a sua volta, e na mente deles – após adotar um estilo diferente do que estavam acostumados – ela se vendeu para um mundo que todos consideravam asqueroso.

O que Andy fazia de tão asqueroso? Ela defendia uma mulher que sempre trabalhou duro para conseguir o que queria (apesar dos pesares), ela trabalha em algo que não a deixa completamente satisfeita para que consiga, futuramente, prosperar (o que fez com que ela tomasse atitudes drásticas que afetaram sua colega de trabalho, Emily), sacrificou muito de sua vida pessoal e mudou seu visual para algo que ela realmente pudesse gostar e ser capaz de aceitar quem ela é. Se ela fosse um homem, a retaliação seria a mesma ou tudo seria considerado normal?

014888-meryl-streep-devil-wears-prada

O filme, infelizmente, passa a mensagem de que se você se esforçar além do esperado em seu emprego, você estará se vendendo para o sistema do qual agora faz parte. Além, é claro, de apresentar uma mulher incrivelmente bem sucedida como o “Diabo” em pessoa, e que, é claro, veste Prada. Mais uma vez eu xs questiono: seria da mesma forma se Miranda Priestly fosse um homem?

Ao lutar ao favor do feminismo estamos lutando por direitos iguais para ambos os sexos, e com isso seremos agraciadxs com melhores condições assalariais e, conseguintemente, com a melhor compreensão do papel da mulher no mercado de trabalho (além, óbvio, de muitos outros fatores importantíssimos), para que tais comportamentos e opiniões errôneas não mais aconteçam.

tumblr_mbldhoxgs51qb4nrgo1_500

All Lives Matter.

A história da humanidade sempre foi manchada por preconceito racial, este vindo de civis ou de forças policiais. Estes, que são uns dos principais responsáveis por nossa integridade física, nos deixam a mercê de atos de pura barbárie em que nem mesmo um traje de super-herói pode nos proteger.

A vida de Hector Ayala – também conhecido como White Tiger – permanece desconhecida por muitos até os dias de hoje. Nascido em San Juan, Porto Rico, Ayala é um dos super-heróis que fazem parte do acervo da Marvel; um universitário que encontrou os preciosos amuletos de tigre, que conferiam a ele habilidades incríveis que o transformavam no super-humano White Tiger.

O início de sua carreira como super-herói foi marcado por turbulências que (devido a situação em que nos encontramos após os protestos de Ferguson) não podem – e não devem – passar despercebidas.

White_Tiger_Hector_h14Tudo começou com um dos ataques da gangue Nomads a um policial, que resultou no homicídio de Kid Lopez, que ao tentar arrematar um tiro em Ayala, foi mortalmente atingido por sua vítima inicial. A revolta interna do poderoso White Tiger começou neste momento, quando viu a vida desaparecer dos olhos de Lopez quando acreditava poder ser capaz de guiá-lo para fora do mundo da violência. Por ter suas digitais armazenadas no Departamento de Polícia de Nova York e elas terem sido encontradas na cena do crime, Ayala foi acusado de assassinato. E, também, após ser vítima de um triste acaso de coincidência, o famoso White Tiger foi acusado de assassinar o pai de Jack of Hearts, novamente tornando-se culpado por algo que não cometeu.

Mas, a fatalidade real de sua carreira foi quando, após brigar com sua esposa, Hector resolveu caminhar para espairecer, quando tombou com Sanchez e Mikey, que haviam acabado de assassinar um policial após roubar uma loja de penhores. Devido ao susto, Sanchez jogou a televisão que havia roubado nas mãos de Hector, deixando-o parado com o objeto furtado diante do corpo sem vida da vítima.

Não conseguindo ser inocentado no tribunal mesmo com a ajuda de seus advogados, Paul Delacourt e Matt Murdock (mais conhecido como Demolidor), Hector agrediu dois policiais, fugindo para os degraus da corte com a arma de um deles em punho. Por não parar apesar das ordens oficiais, ele foi assassinado à queima roupa, tornando-se considerado inocente após seu falecimento.

white_tiger_ayala_hector - death

Apesar dos detalhes um tanto quanto racistas de sua história, que relatavam seu irmão Filippo como um viciado em diversas drogas, e todos os envolvidos nos crimes que acabaram por indiciá-lo como suspeito também possuindo origem latina, a trama nos oferece pontos incríveis para pensarmos sobre o preconceito com o qual não deveríamos ser obrigados a conviver.

Após os acontecimentos de Ferguson, que começaram com o assassinato à queima roupa do jovem Michael Brown, de apenas dezoito anos, que estava desarmado e rendeu-se por completo para o policial que o assassinou, podemos observar o quão somos afetados por este mal.

Nós que somos de origem latina poderíamos ser tratados da mesma forma que o jovem estudante Michael Brown, que era negro, estadunidense, e que acabou tendo um trágico fim por mãos oficiais caucasianas. Não querendo acreditar na veracidade das palavras de Brown, o policial Darren Wilson desferiu um tiro à queima roupa e após estar caído no chão, desferiu outros nove tiros.

longform-original-2439-1416932708-7

O jornal Los Angeles Times reportou que 48 dos 53 policiais que fazem parte do departamento de polícia de Ferguson são brancos, enquanto 65% da população é negra. Um destes 48 ainda é Darren Wilson, que foi inocentado de todas as acusações. O quão absurdo torna-se esta situação?

 O desumano destino de Brown motivou as manifestações de Ferguson, onde habitantes da cidade circulavam com cartazes que diziam “Black Lives Matter” (Vidas Negras Importam), apontando para o fato de que negros não são inferiores em nada, muito menos em importância, e que suas vidas importam tanto quanto qualquer outra.

Se o rapaz assassinado fosse um jovem estudante caucasiano, qual seria o fim de Darren Wilson? Provavelmente seria diferente. Quantos jovens negros e latinos são assassinados e que, infelizmente, não recebem a mesma importância, ou são retratados criminalmente pelas mídias de massa?

Vivemos em uma sociedade que é obrigada a conviver com opiniões e tendências preconceituosas, mas não deveria ser assim. Enquanto muitos retratam o preconceito como algo intrínseco ao ser humano, eu me questiono quantos episódios similares ao de Hector Ayala e ao do jovem Michael Brown continuarão a acontecer até que nos tornemos livres deste mal que nos atormenta.

longform-original-16852-1416932815-21

50 tons de?

O simples ato de começar a buscar compreender sua sexualidade é alvo de críticas até os dias de hoje. O mais confuso nisto é que homens sempre tiveram direito a descobrir do que gostam, sempre tiveram seus fetiches expostos livremente e são donos de uma “erotica” bem construída. Mas, se a “cool girl” pensar e ousar falar que gostaria de ser beijada ou tocada com mais intensidade, ou simplesmente cogitar ter fetiches, ela torna-se impura. Quando nossa sexualidade tornou-se algo impróprio para o nosso ser?

Quando somos apresentados a algum ambiente ao qual não estamos completamente familiarizados é normal mostrar sinais de aversão, procurar defeitos e apontá-los, mas seriam estas imperfeições reais? Será que não estamos apenas observando a história superficialmente?

Durante toda a história narrada por E. L. James podemos observar a jovem mulher Anastasia Steele, que tem 21 anos, é virgem e está no último período de sua faculdade. Uma mulher que não conhece perfeitamente sua sexualidade e começará a descobri-la cada vez mais com o auxílio de seu primeiro parceiro sexual, Christian Grey.kq_fifty-shades-of-grey_videothumb-620x349

Para muitos, a relação que Ana construiu com Christian pode ser considerada abusiva, onde Christian a comanda por completo, analisando-a friamente e determinando o que ela deve ou não fazer; Ana chega a perder o senso de si, acreditando profundamente que seu primeiro parceiro sexual deseja, friamente, moldá-la e fazer com que ela se transforme em algo que não é.

Para estes mesmos leitores da obra de James – mesmo que um trabalho criativo de ficção – a relação retratada reflete a realidade de muitos que ainda vivem em relacionamentos abusivos. Mas, a diferença entre a prática do sadomasoquismo entre um casal onde existe consentimento e de uma relação abusiva é gigantesca.

Anastasia possui poder de decisão sobre tudo que faz e sobre o que será infringido a ela. O que quer dizer que, se ela desejar terminar, por completo, a relação que possui com Christian, tudo que ela precisa fazer é cancelar o contrato. Então nos deparamos com uma grande muralha – muralha esta que separa, perfeitamente, relacionamentos abusivos de relacionamentos com prática de sadomasoquismo.-55b67aa7-8574-47c3-af87-a9703739f3b8

Os estudos feitos pelo Journal of Women’s Health acabaram trazendo um ponto de vista diferente para nos ajudar a entender melhor a situação em que nos encontramos. Tais estudos apontaram que em uma amostra de 650 mulheres estudadas na faixa de 18-24 anos, leitoras de 50 Tons de Cinza tem 25% mais de chance de ter um parceiro que xingue ou grite com elas, 34% de chance de ter um parceiro que possa apresentar tendências que o classifiquem como um stalker e  74% de chance de jejuarem durante 24 horas e utilizarem auxílio de produtos de dieta. Mas, o estudo falhou em determinar se estas mesmas mulheres apresentavam estes comportamentos antes ou depois da leitura, e não foram capazes de dizer se a leitura contribuiu ou criou estas ocorrências.

O mais interessante neste ponto de vista é que ele não contabiliza anos de subordinação a padrões estéticos atribuídos a mulheres, que ao tentarem, em um último momento de desespero, enquadraram-se no que é considerado belo acabam por recorrer a distúrbios como a bulimia e a anorexia.

Fifty-Shades-Of-Grey-Gallery-03

O grande problema está em produtos midiáticos que bombardeiam a sociedade há anos com mensagens que servem para agradar somente aqueles que as criam; como a submissão da mulher ao homem, o padrão de beleza feminino e sobre quais são os comportamentos adequados e inadequados para tornar a figura feminina digna de respeito. Logo, não é 50 Tons de Cinza o problema na vida destas 650 mulheres (e muitas mais que ainda sofrem), e sim o que consideramos certo e errado e tentamos, com todas as forças, transformar em verdade absoluta.

50 Tons de Cinza não impede que as mulheres caminhem em direção a seu próprio bem estar, e sim as incentiva a buscar, cada vez mais, o conhecimento sobre sua própria sexualidade – seus gostos e prazeres.

 A história de E. L. James recebeu um enfoque um tanto quanto diferente do livro em sua adaptação cinematográfica, nos entregou uma Anastasia mais independente e menos obcecada, ela tornou-se uma figura mais palpável e alguém que gostaríamos de conhecer; ele nos apresentou, de fato, o que importa em suas páginas: o descobrimento sexual de uma mulher – a forma como ela começa a conhecer seu corpo, seus gostos e sua sexualidade. Estamos falando de uma jovem mulher que, assim como a maioria ao redor do planeta, está finalmente se descobrindo e percebendo que não existe nenhum problema nisso.

50 tons de notas da editora: 

Após repassar mentalmente algumas passagens dos três livros da trilogia criada por E. L. James, e relê-los com o cuidado e a atenção que eles merecem, fiquei um tanto quanto transtornada em como fui leviana com o que não deveria ter sido.

Ao falarmos do relacionamento que Christian e Anastasia possuem, alguns diálogos representam muito bem o dia a dia de relacionamentos abusivos – como Christian batendo com as mãos em punho sobre a mesa e gritando com Ana, ofendendo-a, ou após ela negar-se a certos atos sexuais e ser ameaçada, e até mesmo quando Christian diz que ela não tem para onde fugir, que nem mesmo o Alaska é longe o suficiente, pois ele sempre poderá encontrá-la.

É lógico que, ao falarmos de relações onde existe a prática de BDSM, iremos presenciar técnicas como bondage, choking, tapas, etc. que fazem o uso da “safe word” válido quando @ submiss@ está sendo infringid@ a mais do que pode suportar; mas, 50 Tons de Cinza relata superficialmente o que é a prática do BDSM, que pode acontecer em relacionamentos onde existe o ato sexual ou não.

Christian possui, sim, atitudes características de relacionamentos amorosos onde existe a prática do abuso (sendo ele mental ou físico), com aspectos violentos e hostis. Mas, 50 Tons de Cinza, apesar disto, trata sobre o descobrimento sexual de uma mulher, e a adaptação cinematográfica tenta enfatizar a positividade que existe em descobrir nossa sexualidade.

tumblr_njq1f0Sdfm1r7eta3o1_500

A dura realidade de Garota Exemplar.

A interpretação do público sobre a história criada – e conseqüentemente adaptada para as salas de cinema – por Gillian Flynn pode ser extremamente falha. Enquanto grande parte dos consumidores ofende uma personagem chamando-a de insana e de imbecil por ter acusado falsamente dois homens de estupro, a observação geral que deveria ter sido feita se perde na escuridão. Será que realmente somos o projeto do ambiente em que vivemos? Não seria Garota Exemplar uma das melhores exemplificações da sociedade em que nos encontramos?

Enquanto muitos comentários na internet acusam erroneamente Flynn de misoginia, eu questiono quantos realmente se importaram em adentrar o ambiente que lhes era oferecido (na mente de suas personagens e tudo que as cercava). Ao observar superficialmente pode-se ver uma mulher cansada, mas do quê exatamente ela se cansou? Seria você capaz de dizer?

gone-girl-rosamund-pike-ben-affleck

A realidade sobre o quão feminista é a obra criada por Flynn não deve ser considerada relativa; ela é uma pequena versão do que é o feminismo atualmente. Apesar de nossa protagonista ter se utilizado de algo que denigre as mulheres desde as histórias bíblicas (Gênesis, capítulo 39: a esposa de Potifar e o escravo José), classificando-as como seres perigosos que usam o sexo como arma, não reduz o quão brilhante a obra que temos em mãos é. O fato de Amy ter acusado falsamente dois homens de estupro não torna a situação de “crying out rape” comum em nossa sociedade; em produtos criados para o nosso entretenimento, uma passagem como essa faz com que o consumidor fique confuso e permite que a história caminhe, criando, assim, empatia da forma mais crua e sensível que podemos imaginar.

O mais recente estudo feito pela Crown Prosecution Service provou que a ideia cultural que se têm de que as falsas alegações de estupro prevalecem sobre as verdadeiras é errônea; o estudo reporta que em um período de 17 meses foram feitas 5.651 acusações de estupro, mas apenas 35 eram falsas. E as acusações feitas por menores de 18 anos partem, em 40% das vezes, de seus pais, o que reduz o número de falsas alegações ainda mais.

Screen-Shot-2014-09-23-at-2.04.10-AM

A dura realidade é que Garota Exemplar retrata a maioria dos relacionamentos que podem ser observados em nossa sociedade; e ao falarmos de relacionamentos em paralelo a obra de Flynn, não falamos somente dos casais que caminham por sob a Terra.

Amy Elliott Dunne é o produto de todos os meios aos quais foi obrigada a habitar. Sempre pressionada a ser a garota exemplar que obtinha sucesso em tudo que se obstinava a fazer, Amy era oprimida por seus pais, as únicas pessoas que são obrigadas a aceitá-la como ela é. Eles fizeram mais do que plagiar sua vida e entregar para as massas em estantes de livrarias, eles a moldaram como acreditavam que ela deveria ser; em suas visões deturpadas e confusas, eles melhoraram-na. E, conforme Amy vivia sua vida, ela via-se obrigada a viver sob os padrões que todas as mulheres são obrigadas a enfrentar: a esposa carinhosa, a boa mãe, a mulher incrível… A “cool girl” que encanta os homens, este sendo o maior elogio que eles podem pensar em fazer a uma mulher.

tumblr_nexbtedpyt1u3q1wxo6_500

Todos os homens em sua vida procuraram moldá-la para que ela fosse o que eles gostariam de ter em suas vidas, de Desi a Nick. E ao falarmos deste, temos um marido sem senso de direção que se torna hostil e entediante após perder seu emprego de escritor em uma revista. Um homem que vê sua mulher como a total controladora de sua única fonte de renda e de todo o seu dinheiro. Futuramente, ele a verá como a “vadia psicopata”.

Um homem que, perdido em sua vida e cansado do que se tornou sua garota descolada, encontra carinho e alegria momentânea na versão mais jovem de sua linda e loira garota descolada, que comia pizza fria e asinhas de frango e ainda assim conseguia continuar vestindo 36.

Nick não consegue ver que está afetando e abusando de Amy devido ao ambiente que impõe porque ele é a figura central do ambiente que está impondo a uma mulher. A história de Amy – tudo que ela deseja ser, quem ela é e o que ela gosta – anda algemada ao seu desaparecimento.

Garota Exemplar reflete a dura realidade a qual seres humanos são obrigados a enfrentar, e nos faz pensar se não somos todos nós garot@s descolad@s tentando agradar a alguém. Afinal, todos somos frutos do ambiente em que somos obrigados a conviver.

tumblr_ngf6w5pF6f1qhhxd4o2_500

Panem et circenses.

Todo mundo que leu ou assistiu a Jogos Vorazes irá te dizer, empolgadamente, que é um “must read/see”, e que você não pode deixar passar. Mas o que torna a obra criada por Suzanne Collins uma obra fundamental na vida de alguém? O banho de sangue dos jogos ou a crítica social brilhantemente construída?

A interpretação distorcida da história criada por Suzanne na mente dos consumidores acontece há um bom tempo, mas me questiono se eles chegaram a enxergar e absorver o que de fato ela almejava contribuir para seus pensamentos.

Quando falamos de marcas como Hunger Games, Crepúsculo e Harry Potter, nós sabemos que o brand equity delas é estratosférico; brand equity nada mais é que o valor de uma marca, ou seja, seu grau de lembrança, assim como a fidelidade dos consumidores para com o produto oferecido (é válido lembrar que o pin do tordo, símbolo das classes trabalhadoras e da rebelião contra o elitismo, é distribuído em cinemas por todo o mundo junto com o combo da sua pipoca, ou você pode simplesmente comprar por cerca de R$30 na internet). Foram vendidas mais de 24.000.000 exemplares só nos Estados Unidos, a bilheteria foi cerca de US$100.000.000 só na semana de estréia e as camisetas, fantasias e action figures vendem como água no mundo inteiro.

CFLondonPremiere-001

Obviamente não é errado eles desejarem arrecadar cada vez mais dinheiro com o produto oferecido, mas quando se começa a desvirtuar a compreensão que o consumidor deve ter da crítica social brilhantemente escrita por Suzanne, é claro que teremos um problema.

É válido citar que a história é ambientada de acordo com a política de pão e circo (Panem et circenses) implantada pelos romanos, na época dos gloriosos gladiadores; nela o governante irá oferecer a sociedade governada, que está com sérios problemas – como inanição, saúde precária e falta de saneamento básico –, alimentação e entretenimento para que os governados não se revoltem contra quem os desumaniza. Veja só, não é isso o que o presidente Snow faz em Panem?

A Capital criada pela autora não é nada mais que uma crítica social com um visual exagerado da nossa sociedade. Ela quis retratar nossos maiores defeitos, como o conformismo, o consumismo e a futilidade. São personagens que possuem pouquíssimo senso crítico e que ignoram o que está acontecendo a sua volta, como o início de revoltas populares, a desnutrição e as péssimas condições de vida de muitos distritos.

mockingjay image2

Enquanto terríveis embates acontecem diariamente ao redor do mundo, como as revoltas de Ferguson, revoltas na Austrália e o movimento iniciado pelas meninas da Pussy Riot na Rússia, o que a maioria das pessoas que você conhece fez ou falou? Sobre os movimentos ou sobre outros assuntos? Quantas pessoas você conhece que realmente se engajaram nos tópicos citados?

Será que aqueles que estão diretamente associados com a produção e com o desejo implantado no público que irá favorecer o culto ao que é oferecido, compreendem a essência do que eles possuem em suas mãos? Do valor arrecadado, quanto foi doado para causas endossadas durante a trilogia, como países com revoluções civis, desnutrição e péssimas condições de trabalho? Nada. A Lionsgate, na verdade, convida você para doar US$5 para a causa apoiada pela World Food Programme e Feeding America.

A obra de Suzanne é extremamente densa e bem elaborada, é uma obra distópica que tem como objetivo principal do gênero alertar a sociedade para o que está acontecendo a sua volta. Se analisarmos com olhos críticos, a sociedade em que vivemos é a Capital governada por Snow. Nossa mente e a forma com que lidamos com as coisas ao nosso redor não é algo preto no branco, é colorido e abstrato. Somos fúteis, vaidosos e consumistas, mas não somos tão conformados assim, e muitas vezes tentamos fazer algo, mas somos resilientes o suficiente para aceitar viver no ambiente que sofre mudanças das quais desgostamos.

Members of Akbayan-Youth protest in front of the Royal Thai

Se encararmos o mundo e todos os seus países, quantos dos bilhões de habitantes ainda vivos se rebelaram, de fato, contra seus governantes? Agora considere apenas os habitantes que cultuam Jogos Vorazes e que dizem que Katniss é quem eles são, a verdadeira inspiração deles, quantos são? Apenas alguns habitantes da Tailândia que levantam três dedos, assim como os habitantes de Panem ao apoiarem Katniss durante a revolução, contra seus governantes. Hoje em dia o símbolo é proibido dentro do país, que sofreu ameaças de protestos de estudantes contra o golpe militar.

Felizmente não somos obrigados a viver com o peso dos jogos vorazes (ou com o massacre quaternário) e com as conseqüências que ele traz para o dia a dia da sociedade. Ou será que somos e não temos consciência disso? Mas, vamos voltar a nos preocupar mais com quem é o mais bonito, se é o Peeta, Gale ou Finnick, e ignorar a crítica social de Jogos Vorazes.

tumblr_n0wqmt2SWd1toklayo1_500

Obrigada pelos peixes!

Queridos leitores, nós estamos juntos a pouco mais de cinco anos – dia 25 de maio completaremos seis, não estão animados? NÃO! Porque vocês não sabiam! – desde minha primeira postagem, quando o blog ainda se fazia presente em layouts pré-estabelecidos e domínios comuns de blogspot, percebam como isso tem tempo. Agora, veja aonde chegamos: temos domínio próprio e um layout próprio, mas o blog não é mais o mesmo, e por isso eu peço desculpas.

A vida é atarefada para todos nós, e criar conteúdo fica complicado inúmeras vezes, assim como encontrar tempo para ler aquele livro que está acumulando poeira na prateleira. Então, por muitas semanas o blog ficou parado, sem nada de novo para entreter nenhum de vocês que sempre me deram carinho e atenção. Que sempre se fizeram presentes com seus comentários e visitas.

Por isso, eu tomei uma decisão há um tempo, eu ia começar a criar conteúdo, ia me planejar, dessa vez ia dar certo.  E deu, até não dar mais… Até não ter mais tempo para ter conteúdo, porque eu perdia o timing do planejamento, e como isso se fazia possível, eu não sei explicar.

Foi quando eu passei a perceber que não importava quantas pesquisas eu rodasse online para estudar o comportamento do consumidor de blogs sobre literatura e cultura pop, se eu não me planejasse e me dedicasse mais a isso e a vocês, nada ia mudar; então eu tomei uma decisão e resolvi dar alguns passos (“talvez maiores que as suas pernas”, alguns poderão dizer): o planejamento vai melhorar e vai funcionar, assim como o conteúdo das postagens.

As postagens serão diferentes, mas se acalmem porque nós continuaremos tendo resenhas, vídeos do que eu comprei esporadicamente – porque eu planejo comprar menos, então rezem para isso! – e outros eventuais conteúdos. E o layout vai mudar, e mudar para melhor.

Mas, eu queria saber de vocês, que sempre me acompanharam, ou que chegaram aqui agora: o que vocês gostariam de ver no futuro do blog? O que os motivaria a participar ainda mais?

Obrigada por estarem comigo até o dia de hoje, o carinho de vocês é muito importante. Um beijo e boas férias.